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HaydnMÚSICA ORQUESTRAL

Haydn – Sinfonia nº 44, “Funeral”

Haydn afirmava, sobre o período em que serviu o príncipe Nicolaus Esterházy, em que passava longas temporadas no palácio do príncipe, localizado numa região remota da Hungria: “Eu ficava isolado do mundo. Não havia ninguém por perto para trocar ideias ou me fazer duvidar de mim mesmo e, assim, fui obrigado a ser original”.

O compositor fez estas observações a seu primeiro biógrafo. Elas ajudam a explicar a origem das notáveis sinfonias que ele escreveu no início da década de 1770.

Já o musicólogo H. C. Robbins Landon comenta: “No desenvolvimento de quase todos os grandes compositores, uma rápida sucessão de trabalhos brilhantes marca o advento da maturidade (…). Nem mesmo os melhores trabalhos de Haydn de antes de 1770 nos preparam para a fascinante e profunda série de sinfonias escritas entre 1771 e 1772″.

Haydn escreveu seis Sinfonias nestes dois anos, entre elas, a Sinfonia nº 44, “Funeral”.

Dizse que o compositor teria pedido que o Adagio desta Sinfonia fosse tocado em seu enterro, donde provém seu apelido Funeral. Esse pedido de Haydn é intrigante, porque o Adagio não é trágico ou fúnebre e sim evocativo de tempos passados. A sonoridade velada das cordas em surdina cria um oásis de calma em meio à turbulência que virá nos outros movimentos.

Ele indica Allegro con brio para o primeiro movimento. Este andamento, tão comum em Beethoven, é raro na extensa produção de Haydn. A abertura é notável por suas explosões dramáticas, por seu vigor rítmico e pela sombria intensidade da tonalidade de Mi menor. Reparem nas quatro notas iniciais tocadas em uníssono – elas são a base do movimento e vão reaparecer várias vezes, desde os baixos até os primeiros violinos.

Haydn inverte a ordem usual dos movimentos e apresenta depois da abertura um minueto, em vez do movimento lento. Trata-se de um lance de gênio, diz um comentarista: introduzir um movimento de dança entre o trágico Allegro con brio inicial e a meditação do Adagio. O minueto é composto na forma de um cânon estrito (isto é, em imitação) entre os violinos e as cordas graves – daí o subtítulo Cânone in Diapason. 

Ao minueto segue-se o Adagio sobre o qual já falamos. Surge então o Presto final, talvez o mais concentrado movimento Sturm und Drang (*) escrito por Haydn. Na seção de desenvolvimento, a tensão cresce em sequências de temas, quebradas até o ponto de exaustão.

Haydn – Sinfonia nº 44 em Mi Menor, Funeral | The English Concert, Trevor Pinnock

(*) Sturm und Drang: é, na verdade, o nome de um movimento literário alemão que começaria algum tempo depois. Privilegia a paixão e a emoção e se revolta contra o absolutismo político e as convenções sociais.