O ciclo de canções Dichterliebe (Amores de poeta), escrito a partir de poemas de Heinrich Heine (1797-1856), constitui um apogeu da obra de Robert Schumann e um marco do período romântico.
Schumann se encantou pela poesia de Heine, considerando-a um reflexo do desespero existencial – o amor entremeado pelo encanto do medo e da solidão.
Os poemas selecionados por Schumann para o ciclo retratam um amor idealizado que se transforma em desilusão. O poeta experimenta a felicidade e a dor da rejeição, e reflete sobre seu sofrimento.
Na primeira parte da série, abordamos as canções de 1 a 6, que falam do nascimento do amor até a separação. Seguiremos aqui com as canções de 7 a 16, incluindo comentários e trechos das letras.
Ouça o ciclo integral com o barítono Dietrich Fischer-Dieskau e o pianista Höll Hartmut:
Comentários às canções:
Nas canções de número 7 a 12, o poeta se sente traído – sua amada se casa com outro. A felicidade se esvai, dando lugar às lembranças, lamentações e ao desespero. Nas canções de 13 a 15, o refúgio no mundo dos sonhos é a sua única chance de reencontro e a única via de acesso a um país encantado (Zauberland) e um mundo de felicidade (Land der Wonne). Na última canção, o poeta finalmente sepulta seus poemas e mágoas.
Nº. 7 – Ich grolle nicht (Não guardo rancor)
As palavras falam de perdão, talvez até de reconciliação, mas a música conta uma história diferente – de ameaça e de vingança.
“Não guardo rancor, mesmo que meu coração se parta (…)
Vi a serpente que rói o teu coração. Eu vi, meu amor, quão miserável tu és.”
Nº. 8 – Und wüßten’s die Blumen, die kleinen (E se as florzinhas soubessem)
O vasto espaço sonoro da canção anterior se desfaz aqui, reduzido a um halo luminoso. Música sem graves, como que sem raízes, em que a voz murmurante é o único contorno perceptível.
“E se as florzinhas soubessem quão profundamente ferido está meu coração,
Elas chorariam comigo, para curar minha dor.”
Nº. 9 – Das ist ein Flöten und Geigen (Ao toque da flauta e do violino)
Através do ritmo marcado da dança do casamento, perpassam o amargor e o ciúme do pretendente preterido.
“Ao toque da flauta e do violino, ao som de trombetas retumbantes, dança, na roda nupcial, a adorada do meu coração.”
Nº. 10 – Hör ich das Liedchen klingen (Quando ouço aquela canção ressoando)
“Quando ouço aquela canção ressoando, meu peito parece prestes a explodir de uma saudade selvagem e dolorosa.”
Nº. 11 – Ein Jüngling liebt ein Mädchen (Um jovem ama uma moça)
Schumann transmite a ironia agridoce deste que é um dos mais famosos poemas de Heine. O piano zomba da emoção da voz e a contradiz com acentos nos contratempos.
“Um jovem ama uma moça que, porém, escolhe outro.
Este outro ama uma outra e com esta enfim se casa.
Esta é uma velha história, mas se acontece com você, corta seu coração.”
Nº. 12 – Am leuchtenden Sommermorgen (Numa luminosa manhã de verão)
Para Schumann, a imagem é a mensagem. Aqui, as flores realmente sussurram e falam – daí vem a etérea magia da canção.
Nº. 13 – Ich hab’ im Traum geweinet (Chorei em meu sonho)
O clima de pesadelo, o cortejo fúnebre, sugerido pelos tambores abafados, mostram a profunda compreensão, a identificação do músico com o poeta.
“Sonhei que você jazia em seu túmulo.
Acordei, e a lágrima ainda corria pela minha face.”
Nº. 14 – Allnächtlich im Traume seh’ ich dich (Todas as noites, em meus sonhos, te vejo)
A brevidade das frases e as bruscas mudanças de ritmo reproduzem o ambiente confuso e difuso do sonho.
Nº. 15 – Aus alten Märchen winkt es (Dos antigos contos de fadas, ela acena)
Esta é música de felicidade ilusória. Só no último verso isto se explicita – o mundo de sonho se desfaz como uma bolha de sabão.
“Ah, se eu pudesse ir para lá e alegrar meu coração,
E ser libertado de todo tormento, e ser livre e abençoado!”
Nº. 16 – Die alten, bösen Lieder (As velhas e perversas canções)
O último Lied é o do enterro em um grande caixão, onde são colocadas as antigas canções, os sonhos maus e a tristeza do poeta. Assim termina o ciclo. Mas Schumann, em um extenso poslúdio, retoma o tema da canção número 12, sugerindo assim que, neste fim, esteja um novo começo.