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Schumann – Dichterliebe (Amores de Poeta), Op. 48 | Parte 2
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Schumann – Dichterliebe (Amores de Poeta), Op. 48 | Parte 2

O ciclo de canções Dichterliebe (Amores de poeta), escrito a partir de poemas de Heinrich Heine (1797-1856), constitui um apogeu da obra de Robert Schumann e um marco do período romântico.

Schumann se encantou pela poesia de Heine, considerando-a um reflexo do desespero existencial – o amor entremeado pelo encanto do medo e da solidão. 

Os poemas selecionados por Schumann para o ciclo retratam um amor idealizado que se transforma em desilusão. O poeta experimenta a felicidade e a dor da rejeição, e reflete sobre seu sofrimento.

Na primeira parte da série, abordamos as canções de 1 a 6, que falam do nascimento do amor até a separação. Seguiremos aqui com as canções de 7 a 16, incluindo comentários e trechos das letras.

Ouça o ciclo integral com o barítono Dietrich Fischer-Dieskau e o pianista Höll Hartmut:

 

Comentários às canções:

Nas canções de número 7 a 12, o poeta se sente traído – sua amada se casa com outro. A felicidade se esvai, dando lugar às lembranças, lamentações e ao desespero. Nas canções de 13 a 15, o refúgio no mundo dos sonhos é a sua única chance de reencontro e a única via de acesso a um país encantado (Zauberland) e um mundo de felicidade (Land der Wonne). Na última canção, o poeta finalmente sepulta seus poemas e mágoas.

 

Nº. 7Ich grolle nicht (Não guardo rancor)

As palavras falam de perdão, talvez até de reconciliação, mas a música conta uma história diferente – de ameaça e de vingança.

“Não guardo rancor, mesmo que meu coração se parta (…) 

Vi a serpente que rói o teu coração. Eu vi, meu amor, quão miserável tu és.”

 

Nº. 8Und wüßten’s die Blumen, die kleinen (E se as florzinhas soubessem)

O vasto espaço sonoro da canção anterior se desfaz aqui, reduzido a um halo luminoso. Música sem graves, como que sem raízes, em que a voz murmurante é o único contorno perceptível.

“E se as florzinhas soubessem quão profundamente ferido está meu coração,

Elas chorariam comigo, para curar minha dor.”

 

Nº. 9Das ist ein Flöten und Geigen (Ao toque da flauta e do violino)

Através do ritmo marcado da dança do casamento, perpassam o amargor e o ciúme do pretendente preterido.

“Ao toque da flauta e do violino, ao som de trombetas retumbantes, dança, na roda nupcial, a adorada do meu coração.”

 

Nº. 10Hör ich das Liedchen klingen (Quando ouço aquela canção ressoando)

“Quando ouço aquela canção ressoando, meu peito parece prestes a explodir de uma saudade selvagem e dolorosa.”

 

Nº. 11 – Ein Jüngling liebt ein Mädchen (Um jovem ama uma moça)

Schumann transmite a ironia agridoce deste que é um dos mais famosos poemas de Heine. O piano zomba da emoção da voz e a contradiz com acentos nos contratempos.

“Um jovem ama uma moça que, porém, escolhe outro. 

Este outro ama uma outra e com esta enfim se casa. 

Esta é uma velha história, mas se acontece com você, corta seu coração.”

 

Nº. 12 – Am leuchtenden Sommermorgen (Numa luminosa manhã de verão)

Para Schumann, a imagem é a mensagem. Aqui, as flores realmente sussurram e falam – daí vem a etérea magia da canção.

 

Nº. 13 – Ich hab’ im Traum geweinet (Chorei em meu sonho)

O clima de pesadelo, o cortejo fúnebre, sugerido pelos tambores abafados, mostram a profunda compreensão, a identificação do músico com o poeta.

“Sonhei que você jazia em seu túmulo.

Acordei, e a lágrima ainda corria pela minha face.”

 

Nº. 14Allnächtlich im Traume seh’ ich dich (Todas as noites, em meus sonhos, te vejo)

A brevidade das frases e as bruscas mudanças de ritmo reproduzem o ambiente confuso e difuso do sonho.

 

Nº. 15Aus alten Märchen winkt es (Dos antigos contos de fadas, ela acena)

Esta é música de felicidade ilusória. Só no último verso isto se explicita – o mundo de sonho se desfaz como uma bolha de sabão. 

“Ah, se eu pudesse ir para lá e alegrar meu coração, 

E ser libertado de todo tormento, e ser livre e abençoado!”

 

Nº. 16 – Die alten, bösen Lieder (As velhas e perversas canções)

O último Lied é o do enterro em um grande caixão, onde são colocadas as antigas canções, os sonhos maus e a tristeza do poeta. Assim termina o ciclo. Mas Schumann, em um extenso poslúdio, retoma o tema da canção número 12, sugerindo assim que, neste fim, esteja um novo começo.

 

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