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PIANOSchumann

Schumann – Fantasia Opus 17

Em junho de 1836, durante um período de separação forçada de Clara Wieck, proibida por seu pai de vê-lo, Schumann escreveu uma Fantasia de um movimento a que deu o título Ruínas. Ele iria mais tarde dizer a Clara que esta tinha sido a coisa mais apaixonada que ele jamais compusera – um profundo lamento por ela. Com efeito, mesmo para um compositor extremamente emocional como Schumann, é difícil imaginar uma música mais cheia de paixão e desejo.

Ainda neste mesmo ano, inspirado pela ideia de levantar fundos para um monumento a Beethoven em Bonn, proposta por Liszt, Schumann acrescentou dois movimentos à fantasia original que chamou de Troféus e Palmas e propôs juntar os três com o título de Grande Sonata … para o Monumento a Beethoven. Depois de algumas idas e vindas, acabou publicando os três movimentos, mas com o título de Fantasia.

O comentarista Nicholas Marston encontra afinidades e referências subjacentes relativas a Beethoven na obra. Diz ele:

O nome [Fantasia] cabe bem à obra por seu caráter rapsódico… Por outro lado, a estrutura em três movimentos é característica de uma sonata…

Lembrando o título que Schumann usou antes de Grande Sonata … para Beethoven [citado acima], … podemos então chamar o opus 17 de Schumann de Fantasia quasi una Sonata. Isto, por sua vez, nos remete às duas sonatas do opus 27 de Beethoven que deu a ambas o título de Sonata quasi una Fantasia…

Marston continua em outro trecho…

A presença de Beethoven vai além da ideia passageira da Sonata para Beethoven… O núcleo temático desta música nos parece ser a frase de dois compassos que começa a seção marcada Adagio, no fim do primeiro movimento. Esta frase é considerada uma alusão à última canção do ciclo de canções An die ferne geliebte (À bem amada distante) de Beethoven, na frase Nimm sie hin, denn, diese Lieder (Recebe então estas canções [que cantei para ti]). Com efeito, em junho de 1836, quando Schumann compôs este movimento, Clara era literalmente sua bem amada distante, com quem só podia se comunicar por música. E mais tarde, Clara lhe escreveu: Recebi ontem tua maravilhosa Fantasia. Hoje, ainda estou meio doente de êxtase.

O primeiro movimento, Durchaus fantastisch und leidenschaftlich vorzutragen; Im Legenden-Ton, deve ser tocado de maneira sempre fantástica e apaixonada na sua primeira parte; já a segunda melodia é em tom de lenda, é como se o intérprete estivesse contando uma lenda.

O segundo movimento, Mäßig. Durchaus energisch, é um grandioso Rondó baseado em uma marcha majestosa e cheia de energia, intercalada com episódios que trazem de volta a emoção do primeiro movimento.

O sublime final, Langsam getragen. Durchweg leise zu halten, é lento e meditativo.

Se o primeiro movimento é de Florestan (vigoroso e afirmativo), o final é puro Eusebius (sonhador, introspectivo).

Em uma observação pessoal, esta é para mim uma das maravilhosas perorações com que Schumann encerra algumas de suas obras: Der Dichter spricht (O poeta fala) das Cenas Infantis, a canção Zum schluss (Para concluir) do opus 25 (Myrthen) e Abschied (Despedida) das Cenas da Floresta, op. 82, para citar alguns exemplos.

Para concluir, pois, temos neste final, Schumann, o Poeta que nos fala em um momento da maior inspiração.

Schumann - Fantasy op. 17
Piano: Sviatoslav Richter
Gravação histórica de 1961