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O VOLTAR
Schumann – Liederkreis, Op. 24
Schumann

Schumann – Liederkreis, Op. 24

A relação entre o compositor Robert Schumann e o poeta Heinrich Heine é uma das parcerias artísticas mais profundas do Romantismo, marcada por obras-primas musicais.

Schumann e Heine se encontraram pessoalmente apenas uma vez, em Munique, no dia 8 de maio de 1828. O compositor, então com 18 anos e no início de sua jornada artística, descreveu o poeta, na época com 31 anos, como “uma luz brilhante em meio a uma atmosfera fria na cidade”. 

Em 1840, no chamado Annus Mirabilis (Ano miraculoso) da canção de Schumann, a admiração do compositor pelos textos de Heine, retirados principalmente da obra Buch der Lieder (Livro das Canções), foi sua inspiração para criar ciclos vocais extraordinários, como o Dichterliebe (Amores de poeta), Op. 48, que já comentamos no site, e Liederkreis (Ciclo de canções), Op. 24, composto sobre nove poemas da seção Junge Leiden (As dores da juventude).

Naquele ano, Schumann enviou suas composições a Heine, mas o poeta jamais respondeu. Com o passar dos anos, embora continuasse a ler as novas obras de Heine, Schumann passou a se distanciar do autor, devido aos traços de ironia e cinismo que percebia na “natureza excessivamente pessoal e, muitas vezes, depreciativa” de sua poesia. 

Liederkreis, Op. 24

O ciclo de nove canções utiliza a linguagem metafórica de Heine, envolvendo jornadas, relações pessoais e forças da natureza. De beleza lírica e intensidade psicológica, a voz poética aqui é feita de contradições – anseio e ceticismo, sinceridade e ironia –, criando uma tensão entre o sentimento profundo e o distanciamento. Os poemas começam expressando expectativas e esperanças e terminam com a frustração de um amor não correspondido.

1- Morgens steh’ ich auf und frage (De manhã levanto-me e pergunto)

O amante desperta e, a cada dia, pergunta-se se sua amada virá. Em seu devaneio melancólico, ao anoitecer, ele se deita sem conseguir dormir, sonhando com as andanças de seus dias vazios. 

2- Es treibt mich hin (Arrasto-me para trás e para a frente)

“Uma impaciência furiosa apodera-se de mim!
Mas jamais as horas conheceram o amor;
Conjuradas em secreta e cruel aliança,
Troçam, com malícia, da pressa dos amantes!”

3- Ich wandelte unter den Bäumen (Eu caminhava por entre as árvores)

De atmosfera mais lírica, o poeta aqui vaga pela floresta e conversa com os pássaros, cujo canto o faz lembrar da amada de maneira dolorosamente intensa. A natureza solidariza-se com o poeta, mas ele persiste em sua melancolia.

4- Lieb’ Liebchen, leg’s Händchen (Minha criança, pousa a tua mão no meu coração)

Na ambientação profundamente comovente dessa canção, o piano evoca o som do martelo pregando pregos em um caixão, enquanto o poeta confronta a visão de sua própria morte no anseio pelo descanso derradeiro.

5- Schöne Wiege meiner Leiden (Belo berço dos meus sofrimentos)

A canção narra a amarga despedida do poeta de seu lar e de seu amor ao partir da cidade portuária em uma jornada solitária.

6- Warte, warte, wilder Schiffmann (Espere, espere, barqueiro selvagem)

A jornada do viajante se intensifica em raiva e sarcasmo:

“Que o sangue corra dos meus olhos,
Que o sangue jorre do meu corpo,
Que eu possa, com sangue ardente,
Escrever os meus tormentos!” 

7- Berg, und Burgen (Montanhas e castelos)

Aqui, a trajetória se torna serena. Nessa calma, porém irônica viagem fluvial, as águas guardam uma verdade de duplo sentido: sua superfície tranquila remete ao sorriso gentil da amada, enquanto suas profundezas acenam com o esquecimento. 

8- Anfangs wollt’ ich fast verzagen (No início, quase desesperei)

A canção é uma breve explosão de dor silenciosa: 

“No início, quase desesperei,

e pensei que jamais conseguiria suportar;

mas, mesmo assim, suportei –

Mas não me pergunte como.”

9- Mit Myrthen und Rosen (Com mirtos e rosas)

O poeta encerra suas canções em um livro dourado, adornado com mirtos e rosas, e sonha com o dia em que esse livro vencerá a distância e chegará ao coração de sua amada. 

“Eis aqui as canções que outrora jorravam,

Como um rio de lava jorrando do Etna,

Tão selvagemente das profundezas da minha alma,

E espalhando faíscas cintilantes por toda parte!”

Assista ao ciclo completo interpretado pelo barítono Dietrich Fischer-Dieskau e o pianista Hartmut Höll 

 

 

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