Obras

O VOLTAR
Sonata para Violino nº 9 Bridgetower
BeethovenMÚSICA DE CÂMARA

Beethoven – Sonata para Violino e Piano nº 9 em Lá Maior, “a Kreutzer”, Opus 47

George Augustus Polgreen Bridgetower era um grande virtuose do violino. Foi para ele que Beethoven escreveu a Sonata para Violino e Piano nº 9 em Lá Maior, que ficaria conhecida como “Sonata a Kreutzer”.

Conhecido como “Príncipe Abissínio”, George Bridgetower nasceu em Biala, na Polônia, em 1780, filho de John Frederick Bridgetower (provavelmente originário do Caribe, possivelmente um escravo fugido de Barbados) e de Marie Ann Sovínski  (nascida na Europa Oriental, talvez na Polônia).

O violinista chegou já famoso a Viena, em março de 1803. Beethoven o conheceu por meio do príncipe Lichnowsky, um de seus patronos. Os dois se entenderam às mil maravilhas e o compositor elogiou Bridgetower, louvando-o como “um virtuose muito capaz, que tem domínio completo de seu instrumento”.

Beethoven foi ainda mais longe: propôs escrever uma nova obra para a estreia do violinista em Viena, e acompanhá-lo ao piano. Ele intitulou o trabalho “Sonata  per il pianoforte ed un violino obbligato, scritta in uno stilo molto concertante, quasi come d’un concerto”, ou seja, uma obra para o piano, com um violino obbligato  (obrigatório), escrita em um estilo muito concertante, quase como um concerto.

O compositor não quis escrever aqui um concerto para violino em que o piano fosse o acompanhante, fazendo o papel da orquestra. Não, aqui, os dois instrumentos são solistas e as exigências sobre ambos são muito grandes. É como se fosse um concerto sem orquestra.

Embora tenha trabalhado sem cessar, Beethoven não conseguiu terminar a sonata a tempo da estreia. Bridgetower teve de tocar o segundo movimento a partir do manuscrito, cheio de correções. O Finale foi tomado da Sonata nº 1, Opus 30, felizmente também em lá maior.

 

Apesar de tudo, a estreia foi um sucesso. O segundo movimento foi reprisado duas vezes. Beethoven estava satisfeito com Bridgetower, a quem ele chamava de Brischdauer. Eles tinham se tornado companheiros de boemia. Beethoven chegou mesmo a escrever em uma partitura, em um italiano meio inventado e nada politicamente correto:

Sonata mulattica composta per il mulatto Brischdauer, gran pazzo e compositore mulattico” (Sonata mulática composta para o mulato Brischdauer, grande louco e compositor mulático).

Mas a brincadeira teve um fim triste: Beethoven brigou com Brischdauer e trocou seu nome na dedicatória pelo de Rodolphe Kreutzer, um virtuose francês que nunca a executou por considerá-la absolutamente ininteligível.

A sonata começa de forma pouco usual, com o violino solo, em uma introdução lenta, Adagio Sostenuto, em lá maior. O piano responde em lá menor. Começa aí um conflito entre piano e violino que vai dominar o Presto que se segue, com uma agressividade e uma propulsão rítmica de intensidade rara, mesmo para Beethoven.

O Andante, um tema com quatro variações, é baseado em um tema aparentemente simples. Beethoven revela o caráter lúdico do tema em uma variação com trinados; seu lado sombrio, com uma variação em tom menor; e sua bravura levando o violino em uma ascensão em moto perpetuo até um fá muito alto, mais de três oitavas acima do dó médio. Esse movimento se tornou tão popular no século XIX que era às vezes tocado como uma peça independente e ficou conhecido pelo inexplicável apelido de “Le Tremolo”.

O Presto final retorna ao clima do primeiro movimento. Beethoven o tinha composto em ritmo de tarantela para sua Sonata nº 1, Opus 30, mas a decisão de trazê-lo para a Kreutzer foi sábia: ele seria uma overdose para a Opus 30, nº 1, uma obra suave e gentil. Na Kreutzer, com seu ritmo contagiante, com rodopios e alternâncias entre violino e piano, ele se torna a conclusão ideal para essa que é uma das mais fortes e vigorosas obras de música de câmara já escritas.

 

Beethoven – Sonata para Violino e Piano nº 9 em Lá Maior a Kreutzer, Opus 47.
Adagio Sostenuto | Presto | Andante con Variazioni | Presto
Joshua Bell, violino; Yuja Wang, piano