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Beethoven - Sonata nº 29 em Si Bemol Maior, Op.106 – “Hammerklavier”
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Beethoven – Sonata nº 29 em Si Bemol Maior, Op.106 – “Hammerklavier”

Durante algum tempo, Beethoven resolveu usar termos em alemão para os títulos de suas obras. Assim, chamou as Sonatas Op. 101 e Op. 106 de Sonaten für das Hammerklavier, ao invés da denominação usual, pianoforte. Mas este imponente nome só “colou” para a grande Sonata nº 29, Op. 106. 

A Sonata Hammerklavier marca o início das obras monumentais da última fase de Beethoven. Virão em seguida as Variações Diabelli, a Missa Solene, a Nona Sinfonia e os últimos quartetos. O próprio Beethoven afirmou: 

“Estou escrevendo aquela que será a maior de minhas sonatas. Ela vai dar trabalho aos pianistas… É para ser tocada daqui a 50 anos.”

Beethoven tinha razão. Com exceção de Liszt, de Clara Schumann e de Hans von Bülow, poucos pianistas se arriscaram a enfrentar os imensos desafios da Hammerklavier antes das últimas décadas do século XIX.

O comentarista Paul Griffiths faz uma apreciação da importância da obra:

“Foi no Op. 106 que Beethoven desenvolveu uma linguagem harmônica mais complexa, na qual inclusive os antigos modos (como o frígio e o lídio) são trazidos de volta. As cores harmônicas são ricas, os climas e gestos são intensificados como que por uma dimensão extra. Longas digressões e súbitas mudanças de curso criam movimentos de proporções sem precedentes. Outra marca deste último estilo é a fuga, introduzida como uma volta ao passado, mas também olhando para o futuro, porque o contraponto estrito leva muitas vezes a música à beira do atonal. Beethoven, em vários pontos desta sonata, e em toda a fuga final, parece estar percorrendo toda a distância entre Bach e Schoenberg.”

Não é só para os pianistas que a Sonata Hammerklavier apresenta desafios. Foi esta obra que provocou uma crise na aceitação pelo público da música de Beethoven. A ideia de que sua música é inacessível, até mesmo incompreensível, surgiu como reação às fugas do Op. 106 e do Quarteto Op. 130 na sua versão original – a “Grande Fuga”.

A Hammerklavier foi mais uma das obras dedicadas por Beethoven ao Arquiduque Rodolfo. Na verdade, Beethoven estava em 1817 compondo simultaneamente uma obra coral para a festa de São Rodolfo, homônimo do Arquiduque. O texto começava com as palavras “Vivat, vivat Rudolphus”.

O poder da sonata se afirma logo na fanfarra inicial do primeiro movimento, Allegro. O tema é curto, mas, tal como na Quinta Sinfonia, os compassos iniciais dão o impulso para todo o movimento. 

O breve Scherzo – Assai vivace que se segue é, segundo o estudioso do compositor William Kinderman, é uma paródia de humor negro do primeiro movimento.

O grande Adagio sostenuto que vem depois – o mais longo movimento lento em Beethoven – foi descrito pelo autor Wilhelm Lenz como “o mausoléu do sofrimento coletivo da humanidade”. Marcado “Appassionato e con molto sentimento”, seu lirismo angustiado, segundo o musicólogo Barry Cooper, vem do mesmo mundo da “Cavatina” do Quarteto Op.130.

O compositor Igor Stravinsky chamou a fuga final de inexaurível e exaustiva. Os críticos a relacionam, junto com a “Grande Fuga” do Quarteto Op. 130 e a fuga “Et Vitam Venturi” da Missa Solene, às mais extensas e ousadas explorações de Beethoven na arte do contraponto. O movimento se inicia com uma introdução lenta. Logo se segue o que Beethoven chamou de uma fuga em três partes, “con alcune licenze” (com algumas liberdades), embora a peça obedeça às convenções da fuga, tais como aumentar o tema, virá-lo de cabeça para baixo e de trás para frente.

 Kinderman faz o seguinte comentário final sobre a Sonata Hammerklavier:

“Tal como na Sinfonia Heroica, mas mais profundamente, a Sonata Hammerklavier implica uma progressão narrativa análoga de luta heroica e de sofrimento, levando a um renascer de possibilidades criativas. Depois do purgatório do Adagio sostenuto, o retorno das forças da vida na introdução lenta do final, e o próprio desafio ardente de expressão da fuga em si, reúnem uma das afirmações artísticas mais radicais de Beethoven, uma obra de ‘música nova’, sem compromissos, nem concessões.”

Beethoven – Sonata nº 29 em Si Bemol Maior, Op.106 – “Hammerklavier” | Igor Levit (piano)