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Semana Santa – Paixões

Semana Santa – Paixões

A Semana Santa na música clássica é marcada por obras profundas, escritas por diversos compositores, e focadas na Paixão de Cristo. Destacamos trechos das Paixões de três autores – Johann Sebastian Bach, Krzysztof Penderecki e Arvo Pärt –, que traduzem de maneira tocante os acontecimentos vividos nas horas finais de Jesus Cristo na terra.

Bach – Paixão segundo São João

Paixão Segundo São João de Bach foi estreada em Leipzig, em 7 de abril de 1724. Escrita para um pequeno grupo de solistas, coro a quatro vozes, cordas e baixo contínuo, flauta, oboé e oboé da caccia, em sua orquestração, Bach utilizou ainda alaúde, viola d’amore e viola da gamba

Uma representação dramática do texto do Evangelho de João – que enfatiza a origem divina de Jesus Cristo –, a Paixão se desenrola em muitos planos: na narrativa comovente do evangelista, com intervenção de alguns personagens (como Pilatos, Pedro e Judas) e do coro representando a multidão ou os apóstolos, na meditação lírica individual, interpretada pelos solistas vocais nos ariosos e árias, e na prece, interpretada pelo coro.

De rebuscada técnica artística, mas ao mesmo tempo íntima e com profundo sentido espiritual, a obra possui uma beleza quase austera. O coro de abertura, “Herr unser Hershcer” (Senhor, Senhor nosso), é música monumental, cósmica, e dá o tom da obra. Dissonâncias nos oboés e nas flautas flutuam sobre as cordas ondulantes, criando uma sonoridade característica.

“Senhor, nosso governante, cuja glória é magnífica em toda parte!
Mostra-nos, por meio da tua paixão, que tu, o verdadeiro Filho de Deus,
foste glorificado em todos os momentos, mesmo na mais humilde das coisas!”

BachPaixão segundo São João: Coro de abertura | Netherlands Bach Society regida por Jos van Veldhoven

 

Penderecki – Paixão segundo São Lucas

Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Passio et mors Domini nostri Jesu Christi secundum Lucam), escrita em 1966 pelo compositor polonês Krzysztof Penderecki, possui texto do Evangelho de Lucas e de outras fontes, como o Stabat Mater. Quase inteiramente atonal, a obra é composta para uma grande formação: um narrador (que atua como o Evangelista); vozes solistas de soprano, barítono (no papel de Cristo), baixo, três coros mistos, um coro de meninos, e grande orquestra. 

Tendo como inspiração as Paixões de Bach, remodeladas por Penderecki para uma linguagem modernista do século XX, sua simplicidade e franqueza causam um impacto emocional imediato. Técnicas contemporâneas de composição reforçam seu poder dramático. A escrita coral ousada inclui efeitos vocais surpreendentes, como o canto dos monges tibetanos, que permeia toda a obra, além dos efeitos orquestrais viscerais, que transmitem com força a grandeza e a tragédia da história da Crucificação, como ouvimos no coro de abertura:

“Ó Cruz, salve, nossa única esperança
Neste momento de sofrimento, sua graça aumenta e apaga as acusações.
Fonte de salvação, deixe todas as almas te louvarem.”

Penderecki – Paixão segundo São Lucas: Abertura | Coro de Meninos de Varsóvia, Coro e Orchestra Filarmônica de Varsóvia regidos por Antoni Wit (coro de abertura)

 

Arvo Pärt – Passio 

O estoniano Arvo Pärt é, sem dúvida, um dos compositores vivos mais populares da atualidade. Ele é conhecido por sua técnica “tintinnabuli” (do latim, “sininhos”), caracterizada por um minimalismo sagrado, sua harmonia simples e pela atmosfera meditativa de suas obras. 

Uma de suas composições mais importantes nesse estilo e é Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem, ou A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Segundo João – ou simplesmente Passio, escrita em 1982. Considerada uma das maiores obras corais do final do século XX, essa é uma obra-prima moderna e uma experiência comovente para o ouvinte, independentemente de sua fé.

Pärt utiliza o coro (com e sem órgão) para representar a multidão, ou “turba”, juntamente com Pedro e outros personagens secundários. Um baixo canta as palavras de Jesus, e um tenor, as de Pilatos. De forma incomum, o compositor atribui as palavras do Evangelista, ou narrador, a um quarteto duplo de solistas (soprano, contralto, tenor e baixo) e instrumentos (violino, oboé, violoncelo e fagote).

Passio começa com uma breve e marcante introdução coral, ou Exórdio, que anuncia o Evangelho da Paixão e estabelece a tonalidade de Lá menor sobre a qual toda a peça se baseia. Segue-se uma composição direta da narrativa latina da Paixão, do Evangelho de João, sem acréscimos ou omissões. A obra termina imediatamente após a morte de Cristo. A Conclusão, na tonalidade de Ré maior, confere um tom resplandecente às palavras finais e ao Amém, que causa um impacto poderosamente direto:

“Vós que sofrestes por nós, tende piedade de nós.
Amém.”

Arvo Pärt – Passio: Final | Solistas do Coro de St James’ de Sydney e Schola Cantorum de Singapura regidos por Michael Leighton Jones

 

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