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Uma Nova Era de Ouro do Piano

O piano é um dos instrumentos mais queridos da música clássica. Em seu livro The Great Pianists: from Mozart to the Present (1963, atualizado em 1987), o crítico Harold C. Schonberg escreve sobre os grandes intérpretes desse instrumento, em diferentes períodos.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e Muzio Clementi (1752-1832) são abordados inicialmente por Schonberg. Pianistas, compositores e rivais entre si, em uma competição entre os dois, promovida pelo imperador Joseph II, em 1781, o resultado foi um empate (embora se dissesse que o imperador julgava Mozart superior).

O autor continua falando de dois outros grandes intérpretes contemporâneos do século XIX – Frédéric Chopin (1810-1849) e Franz Liszt (1811-1886) –, ambos compositores também de obras icônicas para o piano. Chopin, com uma produção mais intimista, embora com peças de grande dificuldade técnica, e Liszt, com composições que exigem enorme virtuosismo do executante.

No capítulo “Romanticism Still Burns” (O Romantismo ainda vive), Schonberg destaca dois pianistas que permaneceram fiéis à tradição romântica, após a Segunda Guerra Mundial – Arthur Rubinstein (1887-1992) e Vladimir Horowitz (1903-1989) –, rivais, porém amigos.

Esse “pianismo romântico”, geralmente conhecido como “A Era de Ouro do Piano”, tem como características a ênfase na beleza tonal e na liberdade de interpretação das partituras, beirando, em vários casos, à excentricidade.

Já um ensaio recente, publicado pela revista inglesa Gramophone (Janeiro 2019), de autoria do pianista, compositor e escritor Jed Distler, discorre sobre o fascínio que a era romântica do piano exerce até os dias atuais. Primeiramente, porque o repertório dos recitais é ainda predominantemente orientado pelo século XIX; depois, porque muitos pianistas continuam tendo como parâmetro para seu aprendizado as tradições românticas dos grandes mestres do passado.

Hoje, uma nova geração de pianistas está surgindo, com grande reconhecimento de crítica e de público. Alguns, como Yuja Wang e Daniil Trifonov, já se apresentaram no Brasil. Outros, como Igor Levit, Benjamin Grosvenor e, mais recentemente, Beatrice Rana, chegaram por aqui em gravações.

São jovens entre 26 e 32 anos de idade, com personalidades e estilos próprios. Todos, porém, partilhando do rigor na observância das partituras, além de uma técnica espantosa, que por vezes “transcende o instrumento”, como observa Distler.

A crítica em geral tem sido extremamente entusiástica – a gravação de Igor Levit das quatro últimas sonatas de Beethoven, por exemplo, foi assim recebida pela BBC Magazine: “Aqueles que buscam a perfeição podem parar por aqui (…). Experiências reveladoras como essas nem sempre acontecem, nem mesmo uma vez na vida.”

Jed Distler conclui seu ensaio afirmando: “Estamos vivendo uma incerta, porém empolgante era de mudanças (…). Enquanto testemunhamos novos talentos em busca de seus próprios caminhos e identidades, não somente estamos recriando uma nova Era de Ouro do Piano, mas reinventando-a”.

Aqui, comparamos dois consagrados pianistas, de diferentes períodos, Daniil Trifonov e Vladimir Horowitz, interpretando uma mesma peça – Träumerei, Kinderszenen (Cenas Infantis), Opus 15, de Robert Schumann:

E aqui, Igor Levit, que acaba de lançar a gravação da integral das Sonatas para Piano de Beethoven (Sony Classics), interpreta o segundo movimentos da Sonata nº 17, Op. 31, do compositor alemão:

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